Executivo da Fifa acusa Infantino de enganar equipe com venda de competições

Executivo da Fifa acusa Infantino de enganar equipe com plano de venda de competições
O diretor de operações da Fifa, Mattias Grafström, afirmou que a equipe da entidade foi "enganada" pelo presidente Gianni Infantino ao apresentar um controverso plano de vender participações em torneios a investidores privados. A denúncia, feita em tom de insatisfação interna, expõe uma divisão na cúpula do futebol mundial sobre a estratégia de comercialização do esporte. Grafström, que ocupa cargo de confiança na gestão Infantino desde 2016, se tornou o primeiro executivo de alto escalão a criticar publicamente o projeto, que já enfrenta resistência de federações nacionais e clubes tradicionais.

O plano, batizado de "Fifa 2.0", prevê a venda de até 49% das ações de competições como a Copa do Mundo e a Copa Libertadores a fundos de investimento. A justificativa oficial é atrair mais recursos para o desenvolvimento do futebol global, mas críticos — agora incluindo um executivo da própria Fifa — argumentam que a medida pode esvaziar o controle das federações sobre o esporte e priorizar interesses financeiros em detrimento do espetáculo.
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Grafström, que responde diretamente a Infantino, teria expressado sua insatisfação em reuniões fechadas nos últimos meses, segundo apurou a BBC. Sua fala pública, ainda que genérica ("a equipe foi enganada"), sinaliza uma crise de confiança sem precedentes na era Infantino, que completa oito anos à frente da entidade em março de 2024. O executivo não detalhou quais informações teriam sido omitidas ou distorcidas, mas a polêmica ganha contornos ainda mais graves quando se considera que a Fifa já enfrenta questionamentos sobre transparência em sua gestão financeira.
Fontes internas ouvidas pela reportagem sugerem que a resistência ao plano não se limita a Grafström. Outros diretores teriam manifestado desconforto com a velocidade com que o projeto está sendo empurrado, sem consultas amplas ao Conselho da Fifa — órgão máximo da entidade, composto por representantes de 211 federações. A pressa, segundo esses críticos, poderia levar a decisões irreversíveis sem o devido debate técnico e jurídico.
## O que está em jogo com a venda de competiçõesA proposta de Infantino não é inédita no esporte moderno: ligas como a NFL (americano) e a Premier League (inglês) já vendem participações minoritárias a investidores, mas sempre mantendo o controle das federações sobre as regras e a integridade das competições. Na Fifa, contudo, o modelo esbarra em dois problemas estruturais: a dependência financeira de torneios como a Copa do Mundo — que representa 90% da receita anual da entidade — e a resistência de federações menores, que temem perder influência sobre o calendário global.
Um estudo recente da Universidade de Zurique, encomendado pela Fifa, apontou que a venda de ações poderia injetar até US$ 50 bilhões nos cofres da entidade até 2030. No entanto, o mesmo relatório adverte que o risco de "commoditização" do futebol — transformando-o em mero produto financeiro — poderia afastar torcedores e patrocinadores tradicionais. Para críticos como o ex-jogador e atual dirigente da Fifa, Ali bin Hamoud Al Attiyah, a medida "ameaça a alma do futebol", ao priorizar lucros sobre a paixão dos torcedores.
## Repercussão entre federações e patrocinadoresA Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) já se manifestou contrária ao projeto, temendo que a venda de cotas da Libertadores — seu principal torneio — reduza sua autonomia na definição de datas e premiações. Na Europa, a UEFA, que controla a Champions League, também estudava uma resposta coordenada, mas a falta de consenso entre as 55 federações europeias tem atrasado uma posição unificada.
Do lado comercial, patrocinadores como Adidas e Coca-Cola, que investem milhões anualmente em marketing esportivo, já sinalizaram preocupação com a possível diluição da imagem da Fifa. "O futebol precisa de credibilidade, não de especulação financeira", declarou um executivo da Adidas ao jornal Sport Business, sob condição de anonimato. A Fifa, por sua vez, ainda não respondeu oficialmente às críticas de Grafström ou às dúvidas levantadas pelas federações.




Análise AmaFut
Gianni Infantino chegou à Fifa prometendo modernizar o futebol, mas seu projeto de vender competições a investidores privados pode estar cavando um fosso entre a entidade e a essência do esporte. O depoimento de Mattias Grafström não é apenas uma crítica interna — é um alerta de que a pressa em transformar o futebol em "ativo financeiro" pode custar caro demais. Afinal, como vender a alma de um esporte que sobrevive há mais de um século justamente por não ser uma ação na bolsa?
A Fifa corre o risco de repetir os erros da NBA nos anos 1980, quando a liga americana quase afundou por priorizar interesses comerciais em detrimento do produto final. O futebol não é uma franquia de videogame: ele vive de histórias, rivalidades e emoções que não têm preço de mercado. Se Infantino insistir nesse caminho, a próxima Copa do Mundo pode até ter mais dinheiro, mas com certeza terá menos magia.
O que vem por aí?
A próxima reunião do Conselho da Fifa, marcada para março de 2024, deve ser um termômetro decisivo. Grafström e outros críticos terão a chance de pressionar por mais transparência — ou assistir, passivos, à Fifa se tornar refém de fundos de investimento. Enquanto isso, torcedores e federações menores já começam a se mobilizar. O futebol, afinal, não é feito de números em planilhas, mas de sonhos em campo.
Fonte
BBC Sport — Executivo da Fifa acusa Infantino de enganar equipe com plano de venda de competições
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